O Divino Ato de Projetar

Ricéles Araújo Cósta

Qualquer pessoa por mais simples que seja, ao ser perguntada pela sua "casa dos sonhos" saberá descrevê-la em minúcias. Caso possua uma certa facilidade com lápis e papel, fará com certeza um desenho indicando - a seu modo - portas, janelas, posição dos ambientes, camas, mesa, fogão, plantas no jardim. Neste momento, esta pessoa simples realizou o Divino Ato de Projetar.
Mas, por que "divino"? Antes, vejamos a palavra "projetar". Sua origem está no Latim: projectare, que significa "lançar para frente". Ao buscar a sua casa dos sonhos, a pessoa lança a si mesma para frente, para o futuro onde o sonho está. Ela viaja no tempo (contradizendo as teorias da Física) e vê sua casa pronta. Cada detalhe, cada cor de parede, cada móvel, então, retorna ao presente e apresenta seu sonho materializado. Ela teve uma visão, um vislumbre, um "insight". Ela viu o futuro. Ela adivinhou o futuro. A palavra "adivinhar" tem a mesma origem da palavra "divino": relativo aos deuses, porque só os deuses podem permitir que alguém receba uma visão do futuro.
Ao longo dos séculos com o desenvolvimento da sociedade, este poder foi delegado/outorgado a uma classe de pessoas que detinha um conhecimento bem específico, registrado nos livros e compêndios, padronizado e técnico. Por exemplo, minha casa deve possuir uma porta de entrada. Eu sei onde ela deve ser posicionada. Mas, qual o seu tamanho mais "adequado"? O homem simples sabe qual tamanho de uma porta: o suficiente para passar uma pessoa. Simples. Mas as coisas não podem ser assim tão simples. Não devem ser simples. As pessoas são de alturas e tamanhos diferentes, sendo assim as portas serão também de tamanhos diferentes. Que bagunça! Isso não pode acontecer. É necessário que certos padrões sejam cumpridos. Queremos a beleza da forma. O homem simples não sabe o que é belo. Ele não conhece Geometria e Matemática. Como poderá apreciar as belíssimas proporções do quadrado áureo?
Aos Arquitetos foi entregue o poder de projetar: Agora é ele que se lança ao futuro, vislumbra o sonho de seu cliente. Traz formas toscas e as embeleza. Como um Chico Xavier tecnológico, ele é o médium, o meio, a ligação entre o futuro e o presente, entre o sonho da casa e a realidade do projeto de Arquitetura. Entre o abstrato e o concreto.
Artistas que são, os Arquitetos fascinados pela beleza da forma esqueceram a medida do homem. Não são como Da Vinci que observava a Natureza e produzia conhecimentos nas mais diversas áreas do saber. Estudam apenas o fazer Arquitetura. Embebedam-se com seu poder. Viajam ao futuro e trazem os seus sonhos mais extravagantes à realidade. Os sonhos do cliente ficam em segundo plano. Projetam para satisfazer o seu ego, apenas para seu deleite.
- Vejam como é bela a minha obra!
Os Arquitetos esqueceram a medida do Homem, as suas verdadeiras necessidades, esqueceram que seu poder é divino. Outorgado pelos deuses.
Cada pessoa é uma pessoa. Cada casa é uma casa. Casas são indivíduos, possuem personalidade. São habitadas por pessoas. Pessoas possuem necessidades, sonhos, desejos, vida. Que as casas proporcionem isso aos moradores. Esta é a missão dos Arquitetos.

Rícéles AraúIo Costa é Arquiteto e Consultor de Feng Shui.